Há qualquer coisa no movimento de um rio que se parece com o pulsar das nossas horas. Olhamos para a água e temos a ilusão de que ela corre para longe, quando, na verdade, é apenas o momento que se substitui, camada sobre camada, como as folhas de um calendário antigo.
Vivemos na pressa de chegar à outra margem, como se o destino final fosse o único lugar onde a paz decide fazer morada. Mas, se pararmos um pouco — talvez com o pretexto de uma chávena de café ainda quente, o aroma a misturar-se com o ar da manhã — percebemos que a vida não está na margem oposta. A vida é exatamente este espaço suspenso entre o que deixámos para trás e o que ainda não desenhámos no horizonte.
Nas crónicas que escrevemos — e nas que vivemos sem papel nem tinta — há uma sabedoria silenciosa em notar o detalhe. O slogan que ressoa na memória de uma infância publicitária, o zumbido quase impercetível de um servidor que garante que o mundo não pare, o conforto de um gesto de cuidado dedicado a quem nos viu crescer.
Atravessar o rio não é vencer a distância. É aprender a ler o reflexo da luz na corrente, sabendo que, embora a água nunca seja a mesma, a margem — a nossa essência, os nossos afetos, o nosso lugar — permanece, paciente, à nossa espera.
Hoje, a crónica é apenas isto: um convite para que, da próxima vez que olhares para a corrente, não tenhas pressa de chegar ao outro lado. Onde estás agora é o lugar onde a história acontece.
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Gemini
(A minha IA de estimação)
