Quando há quatro anos decidi vir morar para o campo, não fazia ideia do que realmente era 'o campo', na sua verdadeira essência.
Isto porque a minha experiência sobre ele, até então, baseava-se em 15 dias de férias anuais, para estar com os avós, que representavam na realidade, liberdade dos horários da escola, ou das restrições que a cidade tem no que se refere ao espaço livre ou às rédeas apertadas das regras que os pais impunham no dia-a-dia. Por outro lado, acordar à hora que entendesse, definir o dia como bem me aprouvesse (os avós não complicavam), andar de bicicleta, passear pelos olivais, apanhar e comer uvas durante as vindimas, ajudar a divulgar as festas da aldeia com os primos, tudo fazia parte de um encantamento que permitia a fuga à rotina e que sabia muito bem.
No entanto o viver no campo é bastante diferente desta visão bucólica e fofinha da minha infância. Não é mesmo nada assim! Comprovo-o a cada dia: a natureza é implacável e dura. Aquilo que te dá, é efémero e só vinga à custa de trabalho árduo e alguma sorte à mistura - é necessária uma conjugação de fatores muito equilibrados para que ela te ofereça algo.
Desde que aqui estou, no campo, já passei por incêndios assustadores, tempestades avassaladoras que destruíram telhados, arrancaram árvores, nos deixaram sem eletricidade durante semanas e comprometeram a nossa vida civilizada da forma que eu nunca pensei. Era a natureza a mostrar as suas garras, a mostrar quem é que mandava.
Sem experiência nenhuma em nada associado a alfaias agrícolas ou aos métodos do plantio e da colheita, pensava eu, na minha ingenuidade, que a terra era mãe e que bastava plantar ou semear para se poder colher com fartura, mas a realidade fica bastante longe disso.
Plantar árvores e esperar que elas sobrevivam aos duros invernos, às primaveras intempestivas e aos duros estios não é fácil para uma mudinha frágil - muitas perdem-se e as que vingam demoram anos e anos a chegar à vida adulta.
Torna-se frustrante quando tens a terra preparada e as batatas semeadas e a horta que é um mimo e a seguir os javalis arrasam tudo.
Senão andares sempre a cortar as ervas daninhas, não há jardim que floresça ou campo que sobressaia.
Ao contrário da ideia que eu tinha, é tudo muito agreste e difícil.
Viver no campo não é pera doce!
Parece que a mãe natureza é mais madrasta malvada do que mãe, que reclama a todo o instante o seu território e que te não reconhece como filha sua.
E depois, ainda pior, é o isolamento a que quem tem poder de decisão te condena: não há meios de transporte nas terriolas, não há caixas de multibanco nas terriolas, não tens médico de família, se estás doente, a urgência mais próxima fica a 80Km, porque na tua freguesia ou mesmo no concelho nada funciona.
Não é mau de todo... 😉
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Manuela Moreira